O “Jogo do Bicho” nasceu em 03 de julho de 1892, na cidade do Rio de Janeiro, idealizado por
João Batista Viana Drummond, o Barão de Drummond, para sustentar o primeiro Jardim Zoológico da cidade, que fora fundado em 1888 no bairro de Vila Isabel. Este Jardim Zoológico, devido a amizade entre o Barão e o Imperador D. Pedro II, era subsidiado, mas com a proclamação da República tal ajuda termina.As manifestações positivas, oriundas da imprensa, sobre o lançamento de tal modalidade de “propaganda” foram muitas. O Jornal do Brasil, entre outros, cobriu o evento do lançamento do jogo, em um jantar comemorativo. Diversos jornais divulgavam os resultados diários dos sorteios realizados no Zôo.
No dia 23 de julho, ou seja, apenas 20 dias após o lançamento do “Jogo do Bicho”, e a visitação de algumas autoridades no local - como o Ministro da Guerra - o Delegado
de Polícia local encaminhou ao Chefe de Polícia um ofício sobre a nova diversão lançada pelo Diretor do Zoológico, onde menciona que solicitou o seu diretor para certo recreio público licença, que lhe foi concedida pela polícia, em vista da feição disfarçadamente inocente que da símples primeira descrição do divertimento parecia se deduzir. Entretanto, posta em prática essa diversão, se verifica que tem ela o alcance de verdadeiro jogo, manifestamente proibido. Ou seja, já começa então a perseguição policial ao “inocente” jogo das crianças, por ser, naquela época, crime tipificado no Código Penal.Após essa modalidade de jogo ser reconhecida como jogo de azar, consequentemente decretando as autoridades a sua proibição, passou a ser executado na clandestinidade, mantendo o nome de “Jogo do Bicho”.
Diversos “bicheiros” surgiram visando o lucro com tal modalidade delituosa, dentre eles uma senhora chamada EURIPEDES ANDRADE, que na década de 20 monta uma banca de aposta no bairro de Bangú.
Trabalhando ao lado de sua filha, chamada CARMEM e de seu genro, chamado EUSÉBIO, a banca cresce, conseguindo atingir em 20 anos seu domínio sobre a totalidade do bairro de Campo Grande.
O casal Camem e Eusébio (foto) têm três filhos, sendo que um deles,
chamado CASTOR GONÇALVES DE ANDRADE E SILVA (foto abaixo), bacharel em direito, após a morte de seus pais e de sua avó, na década de 50, assume o controle da banca do jogo. Com sua assunção ele consegue ampliar mais ainda sua área de atuação, atingindo toda a Zona Oeste da cidade. Querido e respeitado, obviamente pelo dinheiro e pelo poder que exercia sobre todos, Castor vira Presidente de Escola de Samba, Diretor de Clube (o mascote do
Bangu Atlético Clube é um castor), convidado de honra em festas de Generais, cumprimentado pelo Presidente Figueiredo, que se afastou de autoridades para falar com ele, etc. Possui também diversas empresas legalizadas, dentre elas a Tecelagem Bangu e carrega também a suposta morte de várias pessoas para poder manter seu domínio, porém nada é provado.Na década de 90, com a nova Lei Zico, que institui a legalização de “inocentes” Bingos no Brasil, FAUSTO PELLEGRINETTI, chefe da máfia italiana, manda um de seus funcionários – o italiano
Em 1995 os contatos italianos mafiosos dos bicheiros são presos e condenados na Itália, possibilitando então, finalmente, a sonhada autonomia desses últimos aqui no Brasil; em 1997 morre Castor de Andrade, deixando como herdeiro de seu império seu filho, Paulo Roberto de Andrade, o que obviamente gera insatisfações entre os nobres membros daquela família – principalmente o sobrinho de Castor, Rogério Andrade.
Em 21 de outubro de 1998, Paulinho de Andrade é assassinado na Barra da Tijuca pelo ex-SD PM RG 56.791 JADIR SIMEONE DUARTE, o qual cheguei a conhecer no BPChq quando este estava preso e ameaçado de morte, a mando de Rogério de Andrade (primo da vítima). Vale ressaltar que Rogério Andrade foi condenado a 19 anos de prisão, já que o ex-SD PM Simeone confessou o crime e revelou quem era o mandante, dizendo ainda que receberia mais 1 milhão de reais caso matasse a Juíza Denize Frossard.
Com a morte do herdeiro, inicia-se a disputa entre o mando de território entre Rogério Andrade e Fernando Ignácio, com o apoio da filha de Castor, sua esposa, CARMEM. Rogério assume o controle da Costa Verde e Sul Fluminense, enquanto Fernando Ignácio assume o controle da Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro.
Em 2001 a guerra rompe de vez entre os ex-cúmplices, quando Rogério Andrade invade o
território de Fernando Ignácio, fazendo com que este perca parte de seu território. Interessante notar que os dois criminosos criam seu próprio exército, ou como mais comumente conhecido no Rio de Janeiro, suas próprias milícias, compostas de policiais federais, militares, civis, agentes do DESIPE e bombeiros militares.Essas milícias, formadas principalmente por supostos agentes da lei, quebram as máquinas dos adversários, matam funcionários da outra parte, impõe o terror entre comerciantes e, principalmente, se matam. Policial versus Policial !!! Muitas vezes em troca de 100 reais por dia de serviço. Isso é fundamental saber para se perceber o ponto de degradação que chegou nossos órgãos públicos e nossos funcionários públicos. Essa situação, independente do tráfico de drogas que assola e destrói a cidade, por si só já configura um clima de terror, se assemelhando às guerras dos mafiosos quando da Lei Seca nos Estados Unidos. Lembram?? Chicago, Al Capone, polícia e políticos comprados...
É claro que os dois marginais da lei, como o antigo capo e mentor, Castor de Andrade, possuem empresas para dar o ar de legalidade em seus negócios. Fernando Ignácio abriu a Adult Fifty Games – Jogos e Diversões Eletrônicas Ltda, enquanto Rogério Andrade abriu a Oeste Rio Games Ltda; ambas empresas “alugam” as máquinas caça-níqueis para os comerciantes, que recebem uma porcentagem do rendimento, fazendo com que alguns locais tenham várias unidades, tornando-os verdadeiros mini-cassinos.
Os dois principais personagens dessa história foram presos pela Polícia Federal, após apenas alguns meses de investigação e depois de ficarem anos soltos, mesmo estando condenados pela justiça e com mandados de prisão vigentes. Estranhamente a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, com todo seu equipamento e serviço de inteligência, nunca conseguiu realizar a prisão desses marginais, tampouco a Polícia Militar, que até se pode considerar menos responsável, já que não tem a obrigação e nem os meios de investigar civis.

Das investigações da Polícia Federal foram descobertos outros tentáculos do “Jogo do Bicho” e das maquininhas caça-níqueis, com a deflagração da operação Furacão. Essa operação trouxe à tona, conforme fartamente noticiado nos jornais, o envolvimento dos chamados “inhos” da Polícia Civil, tão comentados em todos os bastidores da Segurança Pública e do envolvimento até de Magistrados, que supostamente vendiam liminares para que as máquinas não fossem apreendidas e pudessem funcionar.
Realmente essa modalidade delituosa se configura como um excelente negócio aqui no Brasil, principalmente por não ser considerado crime e sim uma simples contravenção penal. Já fui a cassinos fora do país e pude constatar que as máquinas que temos aqui são idênticas as que lá existem. Na verdade temos realmente aqui mini-cassinos, transvestidos de inocentes bingos ou bares com diversões.
Em uma postagem do Major Wanderby, ele perguntava o porquê da cegueira das autoridades no combate ao jogo do bicho, desde o simples apontador no meio da rua, passando pelas maquininhas caça-níqueis, até as grandes apurações. Coaduno com a indignação
daquele Oficial. Não consigo entender como uma sociedade que quer se dizer crente às leis e contrária ao crime organizado pode ir ali fazer sua “fezinha” e se indignar somente com as conseqüências, mas não com o que levou à elas. Não consigo entender o porquê de não haver uma repressão total e completa a esse delito, já que todos se mostram de “mãos limpas”, não vejo motivos para não dar um fim nisso.Claro que sempre haverá estranhos discursos, dizendo que o jogo do bicho não é uma prioridade e que temos coisas mais importantes para nos preocupar. Mas é bem óbvio que a prioridade se demonstra quando está explícito o crime organizado e a formação de quadrilha que existe, isso sem falar na corrupção que se precisa ter para essa engrenagem tão grande funcionar.
Essa história do jogo do bicho envolve muitos outros “chefões”, porém descrevi apenas os dois mais importantes e violentos membros, que vêm realizando uma sangrenta guerra por dinheiro.
E agradeçamos à Polícia Federal que está colocando a mão na sujeira. Pelo menos alguém está fazendo isso. Parabéns a eles.